Comentários das Liturgias

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Is 55,1-3 / Sl 144 / Rm 8,35.37-39 / Mt 14,22-33

multiplicacaoPaesVivendo em uma sociedade mercantil, fundamentada no espírito de troca, estamos acostumados a comprar e vender, e por isso somos tentados a rejeitar a gratuidade. Nessa cultura de comércio, quem não tem dinheiro não encontra espaço e é completamente excluído, chegando a ser considerado como sobra, como resíduos sem valor. Muitos são privados até mesmo do mais básico para a vida humana: a alimentação. Em oposição a essa cultura excludente e seletiva, que condena milhões de pessoas à miséria e à fome, a Palavra de Deus nos apresenta o banquete que o Senhor prepara para a toda a humanidade, a festa da partilha e da gratuidade.

O profeta Isaías anuncia essa ação divina de saciar a todos, proclamando o convite de Deus para o banquete da vida e da salvação. O contexto dessas palavras proféticas é o exílio na Babilônia, no qual o povo sofria ao recordar a abundância de vida que perdera por causa de sua infidelidade. A esse povo sofrido, o profeta anuncia um grande banquete preparado pelo Senhor, para o qual todos são convidados, pois a condição para poder participar não é a posse de bens materiais, mas o coração fiel e temente ao Senhor.

Tal banquete da vida vemos se realizar na festa da partilha oferecida por Jesus à multidão faminta. Na estrutura do Evangelho de Mateus, Jesus aprofundou o mistério do Reino dos Céus por meio das parábolas porque encontrou incompreensão à sua proposta e, iniciando o quarto livrinho, sobre o novo povo de Deus, Mateus apresenta esse contexto de rejeição tanto pelos conterrâneos de Jesus, escandalizados por sua origem humilde, quanto no banquete de Herodes, que causou o martírio de João Batista, indicando que os poderosos rejeitavam o projeto de vida oferecido por Deus, disseminando a cultura da morte.

Já o povo, carente de vida plena e de dignidade, ia ao encontro de Jesus, reconhecendo-O como o novo Moisés, que veio para oferecer a salvação à toda humanidade. O lugar deserto lembra a experiência do povo caminhando no deserto rumo à Terra Prometida. Em meio a mais profunda carestia e total fragilidade, o povo fizera a experiência do amor de Deus, que supria suas necessidades mais vitais, concedendo alimento e a água. Agora, o novo povo de Deus, a comunidade do Reino, reunida em torno de Jesus faz a experiência da graça divina, que sacia a fome na gratuidade, sem recorrer ao espírito mercantil, indicado pela proposta dos discípulos, que pretendiam mandar o povo embora para que fossem comprar seu próprio alimento.

O gesto de sentar-se na grama indica que, nessa festa da partilha oferecida por Deus todos têm lugar, com sua dignidade respeitada. A festa não depende da posse do dinheiro, com pensavam os discípulos, mas da capacidade de partilhar o pouco que cada um possui. Todos ficaram saciados e ainda sobrou, indicando que a gratuidade gera a abundância, enquanto a troca causa a carestia.

Reconhecer a ação divina, que gratuitamente nos socorre em nossas necessidades, produz o sentimento de segurança, e leva-nos a professar confiantes, como São Paulo, que nada pode nos separar do amor de Cristo. Somente ficamos privados desse amor se o nosso coração se deixar dominar pela autossuficiência e pelo espírito de troca, fechando-se à gratuidade da ação divina. Enquanto estivermos com o coração receptivo ao amor de Deus, e capazes de viver na gratuidade desse amor, todas as tribulações desta vida serão superadas, principalmente a miséria e a fome.

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